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Quando morrer, talvez tenha uma ideia formada sobre mim, se o destino me der esse luxo.

Tuesday, April 18, 2006

Adormecer ou esquecer


Adormecer ou esquecer

Os lençóis prendem-me à noite e o escuro do quarto entra-me pelos meus sonhos. Começo a perder a sensibilidade das pernas e vou saindo do corpo que fica esquecido nas profundezas da cama.
Lentamente a cabeça começa a girar e a misturar sensações com visões, deixando-me sem saber bem onde estou e o que sinto.
Sinto que me levo para longe, que me carrego para onde tudo se esconde ou onde finalmente a alma pesa menos que a lagrima.
Começo a sentir que deixo a frieza da vida para me encontrar com o yen e o yang do meu espírito. Só evacuado de mim encontro o meu equilíbrio que teima em se ir embora sempre que o sol nasce. Vou, sinto-me a ir sem sair da travesseira, envolto num brilho que me permite pensar se o meu futuro está nos meus sonhos ou se são estes que nunca sairão de um tempo distante...
A luz vai enfraquecendo como uma chama sem ar, como um pirilampo sem néon, até não sentir mais nada nem ninguém ao meu lado.
Fecham-se os meus olhos ao mesmo tempo que retenho a íris de outro olhar que não o meu, que me segue as pegadas e me guia as passadas até à fonte que me sacia a tranquilidade. É um olhar tão belo e cintilante que me faz desejar nunca mais acordar. Deixar-me levar pelo sonho e não mais voltar para que eu possa sempre guardar o sorriso e a ternura que me abraçam o coração e o alento.
Ah torpor que me levas a consciência mas não a dor. É que essa, mesmo fugindo do meu corpo, não se esquece da minha alma.
Daí a pressa em deixar-me cair na secreta esperança de que o dormir materialize o sonho e faça renascer ainda que na Terra do Nunca, ou quando muito, enquanto de mim estiver escondido... fechado numa flor!
Eugénio Rodrigues
(foto de Eugénio Rodrigues)

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