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Quando morrer, talvez tenha uma ideia formada sobre mim, se o destino me der esse luxo.

Wednesday, April 19, 2006

Crónica Filme - Mar Adentro



MAR ADENTRO

“A vida é um sonho rodeado de morte”.
Não conhecia Alejandro Amenábar nem tão pouco sei das suas orientações filosóficas, mas acredito que, de alguma forma, esta citação de Nietzsche, um Filósofo espantoso, esteve presente no seu espírito, pois esta ideia é muito do que o filme “Mar Adentro” nos traz.
Obviamente que a Eutanásia não se resume ao suicídio assistido, à morte... Seria demasiado redutor abordar esta temática apenas por este prisma e Amenábar soube-o fazer quase na perfeição.
Ramón Sampedro (Javier Barden) é um homem que deixou de viver. Um tetraplégico que não suporta estar preso a uma cama e no entanto, “não quer ver o Mar”. É alguém que sofre de tal forma que chora rindo. É alguém que escreve com a boca, numa letra que lhe vem do coração, uma poesia que lhe salta da alma. Escrever é parte do que ele ainda tem. E escreve porque escrever é sofrer, é viver, é fugir à indiferença e ao mundo dos rostos iguais.
Mas Ramón também voa, voa para onde a imaginação o leva, sem limitações ou barreiras, sem doenças nem fronteiras. A sua imaginação é uma festa que jamais poderá terminar, que o leva “Mar Adentro”, que o leva a Amar.
Nisto, este filme é sumptuoso, onde não falta uma banda sonora escolhida a dedo pois ouvimos Wagner, o tema Nessum Dorma e até música Celta composta pelo próprio Amenábar. É uma espécie de grito melancólico que nos traz à memória “BraveHeart” e “Michael Collins”, e que nos arrepia profundamente à medida que nos vai tocando.
Julia (Bélen Ruedas) é uma Advogada que sofre de uma doença degenerativa e que ao conhecer Ramón acaba por dar um sentido diferente ao que resta das suas vidas. Eles são a prova de que o Amor existe e subsiste mesmo nas condições mais adversas e faz-nos perceber que se ama ou não se ama, muito para lá do que o racional nos ensina ou nos trava. Julia acaba por conhecer a poesia de Ramón e sofrer com ela, dando origem à obra “Morrer para viver”.
Rosa (Lola Duenas) é uma mulher simples, que passa um pouco ao lado do filme mas que encarna, para mim, a personagem mais marcante. Esta mulher “sencilla” é alguém que Ama, acima de tudo, acima de ela própria. É alguém que é capaz de nos mostrar que o Amor também se mede na solidariedade dos pequenos gestos, em querer dar algo quando já nada temos, em sentir-se útil ao ponto de apenas se sentir feliz quando o outro se sente feliz. Rosa encarna o Amor supremo de entregar a Alguém, neste caso a Deus, aquele que mais amamos. Amar é respeita-lo, é deixa-lo ir porque ele assim o quer. E é a sentir e a aceitar este Drama que Rosa dá a sua maior prova de Amor.
Meus amigos, este é um filme de pequenos pormenores e são estes que o fazem muito bom, até porque “Deus está nos detalhes”. Por exemplo, quando Ramón revê os melhores momentos da sua vida, através dos olhos de Julia que folheia fotografias dele, vemos uma em que ele está com o seu cão. Ao fazê-lo, Amenábar elege os animais como seres que merecem amor e respeito, principalmente para aqueles que os matam para “vestir Rainhas”.
A despedida é muito dura. A despedida é duríssima. Tão comovente que só nos apetece gritar para o ecrã e tentar demover Ramón. É impossível controlar as emoções pois esta é a “pedra de torque” do filme.
A fúria espanhola, a forma apaixonada como eles sentem a vida, o humor mesclado de dor, a simplicidade e a expressividade está toda na tela.
Depois de Inarrito, vale a pena conhecer Amenábar, isto para quem não o conhecia, claro está. Este foi o melhor filme estrangeiro do seu ano consagrado por Hollywood e se não o viram, aconselho-vos vivamente. Eu dar-me-ei o presente de o ver outras vezes, tal como o fiz com o “21 gramas” de Inarrito.

Eugénio Rodrigues - 06.03.05
(foto de Rosalina Afonso)

2 Comments:

Blogger redonda said...

Este filme impressionou-me muito e assim como o "21 gramas" fiquei a pensar neles depois (no que contavam, nas questões que colocavam, etc. ...)

7:25 PM  
Blogger Pierrot said...

Redonda:

Este filme está no meu top 5, aliás, tenho-o relacionado em vários blog's que me perguntam.
Comprei o livro dos poemas de Ramom Sampedro e a banda sonora.
Muito bom mesmo
Bjos daqui
Eugénio

12:16 PM  

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