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Quando morrer, talvez tenha uma ideia formada sobre mim, se o destino me der esse luxo.

Wednesday, April 19, 2006

Vertigem




Vertigem

A vertigem é a imensidão do teu pensamento.
O que tu alcanças tem as hastes das tuas ideias.
Os teus sonhos limitam a tua realidade mas dão-te igualmente o sal que tu precisas para tomares o gosto à vida.Tua crias a tua vertigem. Esta é o que os teus olhos cativam, é o que os teus ouvidos agarram. Prende-te no que escutas aos ventos, no que vês lá longe no horizonte, bem para lá do teu espelho.
A vertigem é uma linha que desejas mas não controlas, são limites que queres bem difusos e no entanto, bem rentes de forma a que não te assustes com aquilo que escapa ao teu tacto. Desejas novos sons mas só os velhos te dão segurança. Queres novas cores e rostos diferentes mas foges dos teus pressentimentos. A vertigem é um obituário emaranhado de vidas, uma prisão de sorrisos das tuas memórias distantes e um livro de lábios entrelaçados que ainda terás de beijar para que sejas feliz. A vertigem é o que tu queres que seja, contigo no futuro, perdido algures naquilo que não tocaste nem nesta vida, nem no teu imaginário.
Ora queres a tua vertigem só para ti, ora desejas ardentemente partilha-la com quem quer estar contigo mas que desconhece os desígnios da tua alma. Aí a vertigem esmaga-te, a ti, aos teus cânticos, ao amor e as tuas melodias sobre o encanto do desejo. Aí na vertigem deixa de haver lugar para tudo, para nada, para a tua poesia, para as tuas memórias e sonhos desvanecidos. Aí a vertigem dilui-se como as tuas energias, esfuma-se como as tuas esperanças, desintegra-se como o teu amor e eclipsa-se como a tua vida. Em suma, a vertigem é boa, a vertigem é má.
A vertigem pode ser intrínseca e implodir-nos e a vertigem pode ser um turbilhão incontornável que nos leva para uma guerra que não é nossa. A vertigem pode ter um rosto, uma voz, uma mão que nos dá a provar o doce sabor de outra dimensão, mas também podemos ser nós próprios, estonteantes e parte integrante de tortuosos caminhos de outros corações, ou alguém que lhes toca na sua essência.
A vertigem é alucinação quando procuramos matar a sobriedade que há em cada um de nós e que nos impele a pisar sempre as mesmas pedras, a respirar sempre o mesmo ar, a olhar sempre pelo mesmo angulo, a escutar apenas as palavras que queremos ouvir. A vertigem é enebriante quando lhe sentimos o gosto e o cheiro. Quando descobrimos que a vertigem dá em si mesma novos planos da nossa existência, quando nos obriga a olhar em vez de ver, quando miramos uma cor de dentro para fora, quando uma nota musical se materializa na nossa frente. Pode não ser real, mas passa a ser possível, ainda que apenas no intimo da nossa vertigem.
A vertigem é esfuziante, pois obriga-nos a viver um minuto num segundo, rouba-nos as nossas forças e esgota as nossas vontades tudo porque, quando deparados com a vertigem, lutamos por ficar de pé, quando o que a vertigem quer, qual ente autónomo, é ver-nos prostrados, vazios do passado angustiante e cheios de um futuro diferente.
A vertigem é desconcertante, porque destroi os nossos preconceitos, deixa-nos nus tal como nós somos, entregues a um sorriso desmedido e que pode bem não ter fim, rendidos ao abraço diferente de quem nos viu a alma, de quem participou na nossa tontura.
Aí a vertigem é morrer e renascer ao mesmo tempo, é chorar e rir de uma só vez, é sentir para existir.

Eugénio Rodrigues – 24.03.05
(foto de Mario Junior)

2 Comments:

Blogger aitb said...

Excelente. Gostei mto.

8:13 PM  
Blogger Pierrot said...

Que giro, ver-te por aqui, no sotão deste meu cantinho.
Vou cuscar-te não tarda.
Gracias e ainda bem que gostaste
Eugénio

5:50 PM  

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