
O Condenado
Conta uma antiga e apagada lenda
Em tempos idos onde ainda não havia legenda
Que um homem fora injustamente acusado
Da sua fiel e honesta mulher ter assassinado.
Na verdade, o autor era pessoa bem influente do Reino
E este mais não era do que um pobre coitado
Real candidato mas para a forca do terreiro
De forma a acobertar o assassino renegado.
O pobre homem foi arrastado para o julgamento
Como um teatro cínico de falso procedimento
Foi mirado com desdém desde o padre até ao talhante
Onde a justiça não estava no juíz mas na corda do palanque.
O homem era analfabeto e de origem simplória
Mas já percebera que não sairia vivo desta história
Do cadafalso já não podia rezar ou esperar pela justiça
Uma vez que até o destino lhe debicava a carniça.
Mas o Juíz, do alto da sua manhosa equidade
Propôs ao pobre homem um jogo de sorte
Num papel escreveria inocente e a consequente liberdade
No outro escreveria culpado e a inevitável morte.
“Plebeu”..., disse o Meritíssimo lá do seu púlpito
“Serás tu a sortear um dos fatídicos papeis”...
“Será o Senhor a decidir no seu dom infinito”...
“Deixando nas mãos divinas qual o destino que mereceis”.
Mas esta vã religiosidade e traiçoeira ruindade
Fez o Juíz escrever sempre o mesmo e triste fado
Em qualquer dos papeis estaria sempre a falsa verdade
Culpado, culpado, culpado...
O Homem reflectiu alguns segundos e meio fulo
Depressa percebeu a aldrabisse que o tramava
Vai daí correu até à mesa e de um só pulo
Engoliu um dos papeis de uma só assentada.
“Tolo, infame, desgraçado” gritaram os presentes
“Meu reles assassino, que foste tu fazer?”
E o Juíz apontando ao alegado demente
Vociferou, “e agora , como irá Deus proceder?”
E o Condenado que de otário nada tinha
Troçou dos Homens e disse-lhes num tom de gosto
“Fácil Meritíssimo...leia o papel que está na sua escrivaninha
E verá que engoli e escolhi precisamente o oposto”.
Um hino à inteligência quis escrever
Gritar contra a injustiça "Do" que decide.
E se a Alma jamais deixará de sofrer
A Raíz do Pensamento, essa, será sempre livre.
Texto de origem desconhecida
Adaptação para poema de Eugénio Rodrigues – Outubro 2007
Sugestão musical: Jeff Buckley - Last Goodbye